O mundo do crime organizado tem se tornado cada vez mais sofisticado, e um dos principais exemplos disso é o uso de tecnologia bélica e de espionagem para aumentar o poder de facções criminosas. O caso de Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, líder do Terceiro Comando Puro (TCP), demonstra como esse tipo de tecnologia tem sido empregado para expandir territórios e combater rivais. A quadrilha, sob o comando de Peixão, não apenas investiu em armas pesadas, mas também em dispositivos de espionagem altamente sofisticados, obtidos principalmente por meio do contrabando de itens da China e do Paraguai.
Peixão, com a ajuda de seu braço direito, Everson Vieira Francesquet, conhecido como “Deus”, montou uma rede de inteligência criminal que inclui desde fuzis e granadas até drones de alta tecnologia. Esses equipamentos são usados tanto para ataques contra grupos rivais quanto para ações de sabotagem contra as forças policiais. A Polícia Federal (PF) revelou que a quadrilha estava importando esses itens de forma ilegal, burlando as barreiras de segurança para abastecer suas operações de guerra, e assim garantir uma vantagem sobre as autoridades.
Entre os itens encontrados pela PF estão bloqueadores de sinal, conhecidos como jammers, que permitem interromper o funcionamento de GPS, celulares e Wi-Fi, dificultando o rastreamento de atividades criminosas. Esses dispositivos eram essenciais para a realização de crimes como o roubo de cargas, pois impunham sérias dificuldades às investigações policiais. A regularidade das compras de jammers indica a preocupação de Peixão e sua quadrilha em manter suas operações sem a interferência das forças de segurança.
Além dos jammers, o TCP também se utilizava de fuzis anti-drone, equipamentos criados para derrubar drones que poderiam ser utilizados em operações de vigilância e monitoramento pelas autoridades. Esses fuzis de tecnologia avançada são raramente vistos fora do campo militar, o que demonstra a audácia do grupo em adquirir armamento de altíssima tecnologia, normalmente restrito às forças armadas. A compra e o uso desses fuzis, financiados diretamente por Peixão, visavam aumentar o poder de fogo da facção e proteger suas ações contra a vigilância aérea.
Outro item crucial na estratégia de espionagem do TCP eram os drones lançadores de granadas. Esses dispositivos, adquiridos a um custo elevado, eram usados em ataques diretamente contra comunidades rivais do Comando Vermelho (CV). A facção utilizava essas aeronaves para lançar granadas de forma rápida e eficaz, um meio extremamente eficiente para causar destruição sem precisar de grandes deslocamentos ou da presença física de criminosos no local.
Além dos drones e fuzis, a quadrilha também possuía rádios de comunicação de longa distância, que possibilitavam o contato seguro entre os membros da facção, mesmo durante confrontos intensos. Esses dispositivos eram vitais para garantir que os criminosos mantivessem uma comunicação eficiente, minimizando o risco de interceptação pela polícia. A tecnologia de comunicação da facção era outra forma de proteger suas operações e garantir que seus planos fossem executados com o mínimo de riscos.
Outro ponto importante é que esses itens não eram comprados diretamente pelos líderes do TCP, mas por intermediários como Everson Francesquet. Conhecido como “Deus”, ele atuava como operador logístico da facção, fazendo as transações financeiras e garantindo que as mercadorias chegassem aos pontos de operação. As transferências de grandes quantias, como R$ 30 mil e R$ 32 mil, mostraram a complexidade e a organização dessas transações criminosas, realizadas de forma estratégica para evitar rastreamento.
Esse esquema de espionagem e contrabando de tecnologia bélica não apenas fortaleceu o TCP, mas também demonstrou a crescente sofisticação das facções criminosas no Brasil. O uso de equipamentos de espionagem e armamento pesado, combinados com a habilidade de operar de forma encoberta, fez com que o TCP se tornasse um adversário ainda mais perigoso para as forças de segurança pública. A combinação de poder bélico e inteligência criminal, utilizando tecnologia adquirida de maneira ilegal, representa uma nova fase do crime organizado no país, onde a luta por poder e território é travada com recursos cada vez mais avançados.
O impacto dessa utilização de tecnologia bélica e espionagem não se limita apenas ao aumento de poder do TCP. Esse modelo de operação, envolvendo tecnologia de ponta adquirida principalmente de fornecedores da China e Paraguai, pode ser replicado por outras facções criminosas, tornando-se uma ameaça ainda maior para as autoridades. A batalha contra esses grupos exige não só força policial, mas também uma adaptação às novas táticas usadas pelos criminosos, incluindo o combate à importação ilegal de armamentos e tecnologias de espionagem. Peixão e seu braço direito, “Deus”, servem como exemplo do que o crime organizado pode alcançar com acesso a essas tecnologias proibidas.
Autor: Edwards Jackson