Relatórios de 2026 documentam instalações de uso dual, delegacias não oficiais e operações de influência que colocam a região sob escrutínio.
A expansão da influência chinesa na América Latina ganhou contornos que vão muito além do comércio e dos investimentos em infraestrutura. Em 2026, uma série de relatórios produzidos por órgãos de segurança, centros de pesquisa e comissões do Congresso dos Estados Unidos documentou um conjunto de iniciativas que, individualmente, poderiam ser explicadas de formas distintas, mas que, analisadas em conjunto, formam um quadro de presença estratégica difícil de ignorar. O Brasil aparece com frequência nesse cenário, seja como alvo de ciberespionagem, seja como país onde estruturas de uso dual foram identificadas ou suspeitas levantadas sobre a natureza de certas instalações.
Em fevereiro de 2026, o Select Committee on the CCP da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos divulgou uma investigação afirmando que a China utiliza infraestrutura instalada em países da América Latina para ampliar capacidades espaciais e de coleta de inteligência. O relatório menciona ao menos 11 instalações com vínculos chineses em Argentina, Venezuela, Bolívia, Chile e Brasil. Em cada caso, as estruturas são descritas como tendo potencial de uso duplo: aplicações científicas ou comerciais que poderiam simultaneamente servir a propósitos militares ou de inteligência (conforme detalhado pela Revista Sociedade Militar).
Estações, delegacias e a questão da soberania
O caso que gerou maior repercussão no debate brasileiro foi a pressão de 20 parlamentares sobre o Ministério da Defesa para que explicasse a natureza de uma estrutura de origem chinesa instalada no estado da Bahia. Os pedidos de informação cobram relatórios de risco, pareceres técnicos e cópias de contratos firmados, além de questionar se o governo brasileiro recebeu manifestações formais de preocupação dos Estados Unidos sobre o potencial uso estratégico da instalação para fins de inteligência militar. A pressão foi motivada por alertas publicados na revista Diálogo, publicação patrocinada pelo Departamento de Estado americano e voltada para a alta cúpula das Forças Armadas de países latino-americanos (conforme reportado pela Revista Sociedade Militar).
Outro ponto de tensão envolve os chamados postos policiais no exterior. A Americas Quarterly documentou a existência de estruturas desse tipo em países como Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Colômbia, Equador, Peru e Panamá, apresentadas oficialmente pelo governo chinês como centros de apoio voluntário a cidadãos chineses no exterior para serviços administrativos. Críticos, porém, descrevem essas estruturas como instrumentos de pressão sobre dissidentes e opositores ao regime de Pequim que vivem nesses países. Pequim rejeita essa leitura, classificando as acusações como fabricadas.
O choque de versões coloca governos da região em posição delicada: aceitar a explicação oficial chinesa arrisca parecer ingênuo diante de evidências técnicas; confrontar Pequim arrisca afetar relações comerciais e acordos de investimento que são centrais para a economia de vários países da América Latina.
A tecnologia como instrumento de influência e dependência
Além das instalações físicas, a presença tecnológica chinesa na região funciona como outro vetor de influência. O Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos (CFR) registra que, segundo estimativas da própria Huawei, mais da metade das redes 3G e 4G do Brasil operavam com equipamentos da empresa até 2026. Um piloto de cidade 5G com tecnologia da Huawei foi lançado em Curitiba em 2022 e segue sendo mencionado como exemplo da penetração tecnológica chinesa no país.
Para analistas de segurança, a presença de equipamentos de telecomunicações em redes críticas representa um risco diferente do das instalações físicas, mas igualmente relevante. Redes de comunicação que dependem de infraestrutura fornecida por uma empresa com vínculos a um Estado estrangeiro criam potenciais vulnerabilidades que vão além de questões comerciais. O debate sobre soberania digital, que na Europa levou à exclusão parcial da Huawei de redes 5G em vários países, chega com atraso ao Brasil, mas começa a ganhar espaço no debate parlamentar e nos meios de inteligência nacionais.
A disputa por influência na América Latina, portanto, não se resume a acordos comerciais ou financiamento de infraestrutura. Ela envolve dados, comunicações, espaço e presença física em pontos estratégicos de um continente que, pela primeira vez em décadas, voltou a ser tratado como território de competição geopolítica real pelas principais potências globais.
Fontes:
Revista Sociedade Militar, relatório Câmara dos EUA | Revista Sociedade Militar, parlamentares brasileiros | IT Show, Shadow Campaigns
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

