Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, integra um campo de análise que reconhece no medo e na vergonha dois dos fatores mais determinantes na manutenção do abuso psicológico e da dependência emocional. O debate sobre por que mulheres permanecem em relacionamentos abusivos frequentemente busca explicações racionais para fenômenos que são, antes de tudo, emocionais, e é exatamente essa lacuna que torna a discussão sobre essas emoções tão necessária.
Compreender como elas operam dentro de um relacionamento abusivo é fundamental para que o apoio oferecido às vítimas seja mais adequado e menos julgador.
Vítimas de abusos enfrentam medos concretos e realistas em sua luta por liberdade
O medo em relacionamentos abusivos não é irracional. É, em muitos casos, uma resposta precisa a uma situação de risco real. Taiza Tosatt Eleoterio explica que mulheres em situação de abuso frequentemente têm razões concretas para temer as consequências de uma separação: ameaças explícitas de represália, histórico de comportamentos violentos por parte do parceiro, vulnerabilidade financeira e preocupação com a segurança dos filhos são apenas algumas das dimensões que compõem esse temor.
O problema não está no medo em si, mas na forma como ele é interpretado pelo entorno. Quando familiares e amigos não compreendem a extensão real do risco, tendem a minimizar o medo da vítima ou a tratá-lo como exagero. Essa resposta, ainda que bem-intencionada, pode ter o efeito oposto ao desejado, fazendo com que a mulher se sinta ainda mais sozinha e menos capaz de confiar em sua própria percepção sobre a gravidade da situação.
Sob a perspectiva de Taiza Tosatt Eleoterio, o medo também opera em dimensões menos visíveis. Além do medo físico, existe o medo emocional de encarar a solidão, de não conseguir reconstruir a própria vida, de perder o vínculo que, apesar de doloroso, ainda representa a principal referência afetiva disponível. Esses medos são reais e merecem ser tratados com a mesma seriedade que o medo físico.
Com o tempo, a convivência prolongada com o medo pode alterar a percepção de normalidade. O que inicialmente era percebido como inaceitável vai sendo gradualmente normalizado, e a tolerância a comportamentos abusivos aumenta de maneira que muitas vezes a própria vítima não percebe.
A vergonha como barreira para a saída de relacionamentos abusivos
A vergonha é uma das emoções mais silenciadoras que existem, e sua atuação em contextos de violência doméstica é particularmente poderosa. Taiza Tosatt Eleoterio comenta que, diferente da culpa, que se refere a um ato específico, a vergonha diz respeito à identidade: não é “fiz algo errado”, mas “sou errada, inadequada, merecedora do que acontece comigo”.
Em relacionamentos abusivos, a vergonha tende a ser cultivada de forma sistemática pelo parceiro agressor. Comentários que desqualificam a aparência, a inteligência, a capacidade de julgamento e o valor da parceira vão construindo, ao longo do tempo, uma percepção de si mesma que é profundamente negativa. Quando a mulher chega ao ponto em que acredita que não merece nada melhor, a permanência no relacionamento abusivo passa a ser percebida como coerente com quem ela “realmente é”.
Como bem expõe Taiza Tosatt Eleoterio, a vergonha também opera no plano social. O temor de ser julgada pela família, pelos amigos e pela comunidade ao revelar que está em um relacionamento abusivo pode ser tão paralisante quanto o medo físico. Em muitos contextos, há uma expectativa implícita de que a mulher deveria ter “sabido antes” ou “saído mais cedo”, o que transforma a experiência de ser vítima em algo que precisa ser escondido para evitar o julgamento alheio.
Revelar uma situação de abuso significa, para muitas mulheres, expor não apenas o agressor, mas a si mesmas a um escrutínio que pode ser profundamente doloroso. A vergonha de admitir que “permitiu” que aquilo acontecesse, de que o relacionamento que parecia bom para o mundo exterior era, na realidade, marcado por violência, é um peso que pode ser maior do que o peso do abuso em si.
Quais são os efeitos duradouros da responsabilização indevida em mulheres vítimas de violência?
Além do medo e da vergonha, a culpa ocupa um lugar significativo na dinâmica dos relacionamentos abusivos. Em muitos casos, o agressor utiliza estratégias sistemáticas para transferir a responsabilidade pelos próprios comportamentos à parceira. “Se você não tivesse feito isso, eu não teria reagido assim” é uma construção comum que, repetida ao longo do tempo, vai sendo internalizada pela vítima até o ponto em que ela começa a acreditar genuinamente que é responsável pelo comportamento violento do parceiro.
Essa responsabilização indevida tem efeitos duradouros. A mulher que acredita ser culpada pela violência que sofre não apenas permanece no relacionamento, mas frequentemente resiste a buscar ajuda, por considerar que o problema está nela e que seria humilhante expô-lo. A culpa, nesse sentido, funciona como um mecanismo de controle tão eficaz quanto qualquer ameaça explícita.
Na interpretação de Taiza Tosatt Eleoterio, trabalhar com mulheres em situação de vulnerabilidade emocional frequentemente envolve um lento processo de desconstrução dessas atribuições de culpa. Reconhecer que o comportamento violento do parceiro é responsabilidade exclusiva de quem o pratica é um passo que pode demandar tempo e suporte especializado, especialmente quando a crença contrária foi repetida e reforçada ao longo de anos.
Oferecer informação clara e acolhedora sobre esses mecanismos é uma forma de contribuir para que mais mulheres possam reconhecer o que vivem sem se sentir envergonhadas ou culpadas por isso.
Por que o julgamento do entorno pode dificultar o pedido de ajuda em relacionamentos abusivos?
Uma das dimensões menos discutidas sobre medo e vergonha em relacionamentos abusivos é o impacto do comportamento do entorno sobre a disposição das vítimas de buscar ajuda. Respostas que expressam incredulidade, julgamento ou impaciência diante da permanência no relacionamento abusivo podem reforçar exatamente as emoções que já dificultam o pedido de socorro.
Perguntas como “mas por que você não sai?” ou “você não vê o que está acontecendo?” partem de uma premissa de que a saída é simples e que a permanência é uma escolha incompreensível. Essas perguntas, mesmo feitas com intenção de ajudar, carregam um julgamento implícito que pode aumentar a vergonha da vítima e afastá-la ainda mais das pessoas que poderiam apoiá-la.
Conforme frisa Taiza Tosatt Eleoterio, a escuta sem julgamento é uma das formas mais eficazes de suporte disponíveis para pessoas próximas a mulheres em situação de abuso. Não se trata de concordar com a permanência no relacionamento, mas de oferecer presença, manter os canais de comunicação abertos e transmitir, de maneira clara, que o apoio estará disponível independentemente das decisões tomadas. Esse tipo de suporte cria as condições emocionais que, ao longo do tempo, podem facilitar a tomada de consciência e a busca por ajuda.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

