Segundo Alfredo Moreira Filho, empresário e fundador do Grupo Valore+, cuja família se fundamenta em valores éticos e morais, a formação das novas gerações enfrenta hoje um desafio que nenhuma geração anterior conheceu: boa parte da vida dos jovens acontece em telas que os adultos mal acompanham. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil, 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos são usuários de internet, o que corresponde a quase 24,6 milhões de pessoas nessa faixa etária.
O problema não está apenas no tempo de tela, mas na forma como as famílias reagem a ele. Honestidade, respeito e responsabilidade continuam sendo os mesmos valores de sempre, porém precisam ser exercidos em um ambiente com regras próprias, anonimato e exposição constante. Veja, nos próximos parágrafos, os erros mais frequentes das famílias nesse processo e como evitá-los.
Acreditar que a lei resolve sozinha
Desde março deste ano, está em vigor o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como ECA Digital, que leva para o ambiente online as proteções do estatuto original. Entre as mudanças, as plataformas não podem mais se apoiar apenas na idade declarada pelo próprio usuário e passaram a ter de oferecer recursos para que os responsáveis acompanhem e ajustem o uso feito por menores.
A lei, no entanto, não transfere a educação para as empresas. O próprio texto estabelece que as novas obrigações das plataformas não liberam os pais do dever de agir para impedir que os filhos fiquem expostos a situações de violação. Alfredo Moreira Filho entende que nenhuma regra externa substitui o que se aprende em casa, e a legislação, nesse sentido, apenas reforça uma responsabilidade que sempre foi da família.
Trocar conversa por bloqueio
Diante dos riscos, muitos pais recorrem apenas a senhas, filtros e limites de horário. São recursos úteis, mas insuficientes. A mesma pesquisa aponta que somente 44% dos pais e responsáveis conversam com os filhos sobre o que eles fazem na rede. Sem diálogo, o jovem aprende a contornar a proibição, mas não entende por que determinada atitude é errada.

Para Luísa Adib, coordenadora do estudo, acompanhar e orientar produz resultados muito melhores do que só limitar o acesso, porque a meta é proteger a criança enquanto ela usa a internet, e não mantê-la longe da rede. É exatamente nesse diálogo, como pondera Alfredo Moreira, que valores abstratos ganham exemplos concretos: o comentário ofensivo, a foto alheia compartilhada sem permissão, a notícia repassada sem checagem.
Inverter quem orienta quem
Um dado chama atenção: metade dos pais e responsáveis recorre aos próprios filhos quando busca orientação sobre o uso seguro da internet. A troca entre gerações é positiva, mas não pode substituir o papel de referência dos adultos, sobretudo em temas éticos. Saber usar um aplicativo é diferente de saber o que é certo fazer com ele.
O desafio cresce com as novas tecnologias. Quase dois terços dos usuários de 9 a 17 anos já incorporaram ferramentas de inteligência artificial generativa à rotina, o que levanta questões sobre autoria de trabalhos escolares e honestidade intelectual. Além disso, 84% dos jovens relataram ter visto divulgação de produtos na internet. Discutir esses temas em família, na percepção de Alfredo Moreira Filho, ajuda o jovem a desenvolver senso crítico, algo que nenhum filtro oferece.
Cobrar o que os adultos não praticam
O último erro é, talvez, o mais difícil de admitir. Especialistas que comentaram a pesquisa observam que o comportamento das crianças diante das telas tende a reproduzir o hábito dos pais. Adultos que passam horas no celular, discutem de forma agressiva nas redes ou compartilham conteúdo sem verificar a origem transmitem uma mensagem mais forte do que qualquer recomendação verbal.
Coerência, portanto, vale tanto no mundo físico quanto no digital. A honestidade exigida à mesa do jantar precisa aparecer também nas mensagens e publicações dos próprios pais. Famílias com valores éticos sólidos, de acordo com Alfredo Moreira, têm vantagem nesse novo cenário, desde que compreendam que esses valores precisam ser praticados também diante das telas, e não apenas lembrados longe delas.

