Operação Galho Fraco II investiga suposto esquema de desvio de cota parlamentar usando empresa de locação de veículos como fachada
A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira, 1º de julho, a terceira fase de uma investigação que já dura mais de um ano e meio e que expôs um dos esquemas mais comentados de possível desvio de verba pública na Câmara dos Deputados. Batizada de Galho Fraco II, a operação é um desdobramento da Rent a Car, iniciada em junho de 2024, e mira agora advogados ligados ao deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder da bancada do partido na Câmara. As medidas judiciais, autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, estão sendo cumpridas no Distrito Federal, em Goiás e em Minas Gerais. Entenda a seguir como o esquema teria funcionado, o que já foi apurado nas fases anteriores e o que muda com essa nova etapa da investigação.
O que é a Cota Parlamentar e como o esquema teria funcionado
A Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar, conhecida pela sigla Ceap, é um valor mensal em dinheiro que deputados e senadores recebem do orçamento público para cobrir despesas ligadas diretamente ao exercício do mandato, como passagens aéreas, hospedagem, alimentação, manutenção de escritório e contratação de consultorias. Segundo a Polícia Federal, o esquema investigado desde a primeira fase da Operação Rent a Car envolveria a contratação de uma locadora de veículos para simular contratos de prestação de serviços pagos com essa verba pública, com os valores posteriormente ressarcidos pela própria Câmara dos Deputados aos parlamentares envolvidos.
De acordo com informações obtidas pelo jornal Estadão, a locadora investigada, a Harue Locação de Veículos, teria recebido R$ 915 mil em recursos oriundos da cota parlamentar, e a suspeita da PF é que a empresa tenha sido criada apenas para emitir notas fiscais fictícias com o objetivo de desviar recursos da Câmara. A primeira fase da operação, deflagrada em junho de 2024, concentrou as apurações em assessores parlamentares e reuniu informações sobre os contratos suspeitos, servindo de base para as etapas seguintes da investigação.
As fases anteriores e os elementos que embasaram a nova operação
A segunda fase da Rent a Car, batizada de Galho Fraco, ocorreu em dezembro de 2025 e resultou em mandados de busca e apreensão contra os deputados Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy, ambos do PL-RJ. Na ocasião, agentes da PF apreenderam cerca de R$ 400 mil em espécie em um apartamento alugado por Sóstenes, na região central de Brasília, dinheiro que, segundo o próprio deputado, seria fruto da venda de um imóvel realizada dias antes. Ele afirmou que o comprador havia pagado em dinheiro e que ainda não tinha feito o depósito bancário por conta da rotina de trabalho, versão que os investigadores passaram a questionar.
Durante o último ano, a Polícia Federal reuniu novos elementos, incluindo mensagens obtidas de celulares apreendidos na primeira fase, depoimentos e informações provenientes de quebras de sigilo, o que levou o STF a autorizar as buscas mais recentes. Um dos alvos da operação desta quarta-feira é apontado pelos investigadores como o principal suspeito de ter forjado a compra e venda do imóvel usada para justificar a origem do dinheiro apreendido em dezembro. Carlos Jordy, na fase anterior, negou qualquer irregularidade e afirmou que a locadora mantinha contrato regular com seu gabinete.
O que pode acontecer a partir de agora
Segundo a Polícia Federal, as investigações apontam indícios de um esquema envolvendo agentes públicos, particulares e pessoas jurídicas supostamente usadas para dar aparência de legalidade à movimentação de recursos públicos, além de possíveis tentativas de ocultação ou alteração de provas, o que pode configurar fraude processual. Os investigados podem responder, de acordo com o grau de participação de cada um, pelos crimes de peculato, lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa. Sóstenes Cavalcante não é alvo direto desta terceira fase, mas já foi alvo de mandados em etapa anterior da apuração.
O caso ilustra como investigações sobre uso de verbas parlamentares costumam se desenrolar em fases sucessivas, à medida que a Polícia Federal analisa o material apreendido em cada etapa anterior. Para quem acompanha a fiscalização de recursos públicos, o desdobramento da Rent a Car reforça a importância de mecanismos de transparência sobre o uso da cota parlamentar, cujos dados são públicos e podem ser consultados por qualquer cidadão através do Portal da Transparência da Câmara dos Deputados.
Fontes consultadas:
Metrópoles: https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/pf-mira-esquema-de-aluguel-de-carros-com-verba-parlamentar-da-camara
Terra: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/policia/pf-mira-advogados-ligados-a-lider-do-pl-na-camara-em-operacao-contra-suposto-desvio-de-cota-parlamentar,e19a37c4f464b72d74465c718d9f161bykcok525.html
ND Mais: https://ndmais.com.br/seguranca/entorno-de-sostenes-cavalcante-alvo-pf/

