domingo, março 7, 2021
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Índia, China e Biden (por André Gustavo Stumpf)

O governo brasileiro como um todo, e sua diplomacia em particular, aprenderam muito nos últimos dias. Não há nenhum problema específico na relação diplomática entre Brasília e Nova Déli. A presença do ministro Ernesto Araújo na pista do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, para receber as vacinas indianas indicaram que ele está em busca do prestígio perdido.

A operação fracassou. O imunizante chegou atrasado e não permitiu que o presidente fosse o primeiro a vacinar um brasileiro. Bolsonaro, mais cauteloso, não apareceu. Preferiu confraternizar com os jogadores do Flamengo que treinaram em Brasília.

A Índia não frequenta os jornais brasileiros com a mesma assiduidade de sua vizinha, a China. As relações entre os dois países são tensas. Possuem uma longa fronteira na região do Himalaia. Vez por outra há ocorrências bélicas rápidas, mas capazes de assustar os governos nos dois lados. Na verdade, um e outro precisam demonstrar sua capacidade militar.

Os indianos possuem bomba atômica, submarino nuclear, exército importante, participam da corrida espacial e administram forte economia. Segundo previsões de institutos internacionais, no ano de 2030 a maior economia do mundo será a da China. Os Estados Unidos serão a segunda e os indianos vão figurar em terceiro lugar, depois de empurrar o Japão para a quarta posição.

É pretensão nacional achar que um país sul-americano poderia causar algum tipo de preocupação ao governo da Índia, que tem no seu vizinho muçulmano, o Paquistão, um país agressivo e muito bem armado. A independência do vice-reinado da Índia, província inglesa, produziu três países: a atual Índia, com sua religião tradicional, o hinduísmo, o Paquistão muçulmano e o Paquistão Oriental, que se tornou independente e passou a se chamar Bangladesh. No início desta semana, o governo indiano enviou suprimentos gratuitos para países vizinhos, Butão, Maldivas, Nepal e, naturalmente, Bangladesh.

O envio das vacinas foi acertado entre os ministros das Relações Exteriores. Mas o governo da Índia pediu sigilo, por causa do desastre da primeira tentativa, decorrente da histeria brasileira na divulgação do fato. Até um avião foi adesivado e colocado em posição de viajar a qualquer momento para buscar o imunizante.

Os indianos tinham que passar pelas fases anteriores antes de exportar o produto. Agora facilitaram a entrega de vacinas para Brasil, Marrocos, África do Sul e Arábia Saudita. Os parcos dois milhões de doses vieram em avião comercial, providenciado pelos indianos.

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A China redescobriu o Brasil em 1975 quando os dois países refizeram suas relações diplomáticas. Naquela época, o produto interno do Brasil era superior ao de seu novo parceiro. Hoje tudo se inverteu. A diferença é abissal a favor dos chineses. A principal questão brasileira na sua relação com os chineses é a participação da empresa Huawei na licitação para a compra de equipamentos da internet 5G. Este é o assunto sério em Pequim. O resto é marola. Mas, o Brasil vai mudar. Trump não está mais na posição de dar ordens a seu aliado na América do Sul.

Os correspondentes brasileiros, em Pequim, informam que não há problemas diplomáticos com os chineses. Eles jogam no longo prazo. Estão montando formidável esquema de infraestrutura que refaz a rota da seda e une Europa e Ásia. Enxergam o final do século.

O pessoal do presidente Bolsonaro tem os olhos postos na próxima eleição. Mas o ministro de relações exteriores tantas fez que perdeu a capacidade de negociar com o Embaixador de Pequim em Brasília. Aliás, o governo chinês, discretamente, ofertou diretamente ao governo do Amazonas meios e modos para se proteger da pandemia. Passou por cima de Brasília.

Os chineses têm problemas imediatos. Em fevereiro comemora-se o ano novo chinês, o que significa uma semana de festas em todo o país. O governo tem receio de um novo surto do vírus. O outro problema é sua burocracia. A vacina virá no momento certo, como foi combinado e negociado. O resto é aflição do governo brasileiro, pressionado pelos seguidos fracassos na área de saúde.

E há ainda o curioso caso da vacina russa chamada Sputnik, que é produzida em Santa Maria, cidade satélite de Brasília. Ela está sendo exportada para a Argentina. Mas não é utilizada aqui. Aliás, o governo de Buenos Aires se dispôs a ajudar o Brasil. Seguiu o mesmo caminho da Venezuela, de Maduro, que enviou cinco caminhões com oxigênio para Manaus e ofereceu o auxílio de 107 médicos.

A diplomacia brasileira errou em toda linha. Agora emerge a figura de Joe Biden, nos Estados Unidos, prometendo um governo contemporâneo, nada parecido com o nacionalismo reacionário de Donald Trump. O ano promete.

 

André Gustavo Stumpf escreve no Capital Político. Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou Jornalismo por uma década. Foi repórter e chefe da sucursal de Brasília da Veja, nos anos setenta. Participou do grupo que criou a Isto É, da qual foi chefe da sucursal de Brasília. Trabalhou nos dois jornais de Brasília, foi diretor da TV Brasília e diretor de Jornalismo do Diário de Pernambuco, no Recife. Durante a Constituinte de 88, foi coordenador de política do Jornal do Brasil. Em 1984, em Washington, Estados Unidos, obteve o título de Master em Políticas Públicas (Master of International Public Policy) com especialização política na América Latina, da School of Advanced International Studies (SAIS). Atualmente escreve no Correio Braziliense. ⠀⠀⠀⠀

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